O objetivo das “Thinking Fashion” é pensar sobre a moda de uma forma transversal. A sua importância, os intervenientes, a busca pela relevância nacional e internacional, até a maneira como é capaz de mudar a vida das pessoas.
Ao longo os próximos tempos, as “Thinking Fashion” surgirão sob a forma de entrevista digital. Uma seleção de pensadores que serão postos à prova. O resultado é o somatório de diversas reflexões e perspetivas sobre a moda, este organismo dinâmico e multidimensional por natureza.
Assim, deixamos a entrevista digital a Marta Rebelo, consultora de comunicação digital.
As apresentações estão feitas. Agora, é só pensar.
Pode acontecer, acidentalmente. Não sigo tendências por serem tendências, as que alguém – uma entidade metafísica! – decide serem a sensação da saison. As minhas tendências são muito vintage e vêm lá dos sixties e dos early seventies. Uma vez por década tenho sorte, e na reciclagem de influências vão buscar a minha época estética favorita.
Pode haver sorte, há uma conjugação de factores “astrais”, mas sem trabalho ninguém, em área nenhuma, vai a algum lado.
Precisam de consumidores. Precisam de perceber o seu mercado. Precisam de saber posicionar-se e inovar nas matérias-primas, acompanhar as preferências de consumo (por exemplo, o abandono de pelo verdadeiro, de pele, eco matérias-primas and so on). A moda é uma forma de arte, mas é sobretudo um negócio de muitos milhões. E aqui reside o enorme problema da moda de autor portuguesa: a falta de profissionalização e gestão empresarial do negócio. Naturalmente, um designer não tem de ser enciclopédico e criar e gerir, em simultâneo. Mas a maravilhosa criação e a gestão rigorosa têm de conviver indissociavelmente.
Para mim é uma forma de arte, e em nada menor. Tem um plus fascinante face às demais, maioritariamente contemplativas: é interpretativa, vive daquilo que cada um faz dela diariamente. E performativa, mas é o cidadão anónimo que livremente a interpreta. E diz muitíssimo da sociedade e da identidade de cada um de nós.
Porque a moda é um negócio. E este facto inultrapassável limita, ou pelo menos conforma, as decisões criativas – coisa incomoda para os artistas, compreendo. Mas dadas as dimensões do pequeno mercado português, a necessidade de ler os consumidores é fundamental para captar investimento, para gerar lucro e, portanto, para se viver da profissão.
Deve ser um encontro paralelo. A indústria assume a sua natureza negocial, pelo que lhe interessa realizar lucro. O autor de moda nacional, pelas razões que já falámos, tem de assumir que a criação e a performance comercial são duas faces da mesma moeda. Devem procurar-se mutuamente. Até que esse movimento seja fluído e óbvio para todos os intervenientes, instituições como o Portugal Fashion têm de intermediar esse “namoro” e promover casamentos felizes.
A moda de autor é um nicho, e não interessa a todos os compradores. E essas pessoas não são criminosas nem acometidas de qualquer espécie de fashionbetismo. Por um lado, porque muita gente não pode, financeiramente, comprar peças de autor. Por outro lado, porque a identidade estética de uma grande maioria vive comodamente das tendências que lhes ditam, e a que acedem sem trabalho através da fast fashion. E ainda por ignorância: como é que se chega aos designers portugueses? Onde vendem? Só chegamos ao grande público se o procurarmos e falarmos para ele.
Ainda não integralmente, e esse é um movimento consequente: primeiro, é preciso que as pessoas entendam que a sobrevivência do planeta e dos humanos que o habitam depende da mudança de comportamentos. E que abandonem aquela ideia ridícula de que sozinhas não mudam o mundo. A moda reflete a sociedade.
Como forma de arte, a moda é um espectáculo. E como está na área da vaidade e do ego, é normal que as pessoas queiram assistir e ser vistas. Sobre a Feira das Vaidades já William Makepeace Thackeray disse tudo, no século XIX.
Depende das semanas de moda de que estejamos a falar. Formatos que privilegiem o espectáculo e ignorem a estratégia e o digital, não têm qualquer sentido.
O comércio online, em todos os segmentos, teve um crescimento exponencial com os confinamentos e demais vicissitudes pandémicas. O importante é, agora, afinar o azimute. Na moda, é mais difícil seduzir plenamente os consumidores para o online: é preciso informar de modo muito rigoroso – quais são exactamente as tabelas de tamanhos? As composições e qualidade das peças?; e garantir uma rede logística que funcione na perfeição e facilite escolhas, devoluções e trocas. Eu detesto comprar moda online, porque raramente estão reunidas estas condições (mas compro). São compras de toque.
Alargando o debate às indústrias e a gestores, empresários, consumidores. A moda portuguesa ainda vive muito fechada no seu círculo restrito, avessa a outsiders. Só que os outsiders são precisamente os destinatários da moda.
Essa ideia tem um pressuposto conspirativo que não me parece estar presente. Há alienamento em relação ao que os designers portugueses fazem. Cá dentro, lá fora, não é uma questão de geografia. É de comunicação – e geração de interesse. Nesta era do instantâneo e da plurinformação, temos de chegar às pessoas e estar com elas.